Certas coisas precisam ser aceitas interiormente para que possamos viver com o minimo de paz, caso contrario seriamos atormentados a cada infinitesimo de segundo por tudo que nao entendemos.
Nao tenho problemas com "entender", mas tenho problemas com "aceitar" - Apesar de ter evoluido muito nesse quesito.
As nuances de meus disturbios sempre estiveram muito claros pra mim, muito mais ate do que os traços de minha personalidade. As manias e tiques, os floreios e inseguranças, as manipulaçoes mentais e tendencias pessimistas... Tudo eh muito claro pra mim, talvez por isso eu me sinta tao falha comigo mesma e com outros: eu reconheço tudo que eu sou de ruim. E mais uma vez tentando atestar meu senso de realidade: eu sei que nao sou de todo ruim. Admito que tenho pontos positivos em mim, mesmo que eu nao os enxergue. Ninguem eh ruim por completo, disso eu tenho certeza.
Mas ainda nao sei ao certo como aceitar essas nuances. Acredito que para nos livramos de algo, precisamos abraça-lo e entao aprenderemos como nos livrar dele. Pois se nao, iremos fingir que tal "algo" nao existe, e o deixaremos guardado na nossa fortaleza mental. Ali, na prateleira. Mas o "algo" esta ali, e toda vez que passarmos pelo corredor onde ele esta guardado, sentiremos sua presença.
Nao consigo contruir laços afetivos.
Deixo pessoas penetrarem em uma camada muito fina da minha convivencia. Nao consigo manter dialogos e o caminho que me leva ate a intimidade de alguem eh extremamente trabalhoso pra mim.
Mas eu tento parecer reecptiva e acolhedora, e no geral funciona. Nao crio amizades, mas crio uma aura de confiança. As pessoas se abrem de uma maneira pra mim, que chega a me assustar. Mas isso nao eh amizade, pois nao estou na vida delas, e nem elas na minha... Eu apenas sou alguem que elas confiam, seja la qual for o motivo.
Talvez porque eu olhe no olho sem julgamentos. Nada me assusta ou me intimida.
Depois de despejarem, vomitarem, regurgitarem, cuspirem pra mim, elas se vao. E eu fico.
O motivo delas nao ficarem me atormetou muitos anos, mais anos do que posso contabilizar dos meus breves 22. Sera que sou seria demais? Sera que elas ficaram constrangidas por se abrirem tanto pra mim? Sera que pensaram que sou inadequada demais pra elas? Eu soei falsa pra elas?
Os questionamentos do porque eu nao cativava ninguem, somadas as minhas frequentes tentativas forçadas e fracassadas de me moldar me cansaram. Quem eu era nesse ciclo?
Tentei voltar no tempo para lembrar dos anos da infancia, mas me manipulei a acreditar que eu sempre fui aceitavel nos circulos sociais e que os problemas estao nos dias de hoje. Mas eu nao era e os "problemas" nao sao de hoje. Peguei fotografias, pesquisei em cadernos, publicaçoes antigos... Muita coisa mudou, mas o retrato foi sempre igual: sozinha.
A pressao social de estar sempre cercada de pessoas, sorrindo e teoricamente sendo feliz me contaminou. Porque eu deveria ser aquela fulana que so consegue ser contente cercada de pessoas que a adoram? Essa expectativa claramente me fazia mal, entao por qual motivo eu deveria te-la?
De fato a infancia me mostrou exatamente - E desta vez atravez de provar irrefutaveis - de que eu era uma criança alegre, sorridente e sozinha. Mas nao solitaria. A solidao apareceu depois de me ver cercada de pessoas, e me distanciar de quem eu era para ser semelhante a elas. E eh por esse caminho que tento andar hoje.
Muitas vezes consigo me aceitar nesses aspectos. Mas ainda existem muitas vezes que nao consigo.
Existem momentos em que me sinto bem nos grupos sociais, nesses momentos eu nao me cobro por nada. Mas existem momentos em que me julgo por nao falar nada que os faça rir, ou por estar calada demais. Nessas horas, eu estou me cobrando ser quem nao sou.
Quando minha misantropia esta na estante, ela me incomoda muito, pois todas as vezes que passo no "corredor" da interaçao social, eu ajo com se ela nao existisse. Mas ela esta ali, me observando.
Quando eu a estou abraçando, sei que posso dar passos mais seguros sobre ser quem eu sou.