sexta-feira, 30 de junho de 2017

Porta quebrado

Ela olhou pra mim e disse com ar sério mas debochado - “Você é anormal mesmo”
No fundo eu não achei graça, mas esbocei um sorriso. Eu só tinha dito que gostava de cheiro de cachorros sem banho, cheiro de chulé de cachorro. Olha, eu sei que é peculiar… Mas cá entre nós, “anormal” é uma palavra muito forte, tem um cunho social muito pesado. Senti que eu ia ser abduzida a qualquer momento. O que não seria má ideia, pra ser sincera.
Eu respondi dizendo algo como “você não poderia ter dito apenas ‘diferente’?” E mostrei minha chateação com a testa enrugada e um biquinho de aborrecimento, minhas armas de persuasão que funciona com todos. Menos com ela.
- “Você está arranjando um jeito de brigarmos” Disparou ela um pouco depois.
Sim, eu estava.
- “Admite que você queria que eu fosse diferente! Todas aquelas regras você repassa há tanto tempo.. não dá pra mim.” Talvez eu tenha sido menos incisiva, sabemos que ela me desarma por completo.
Fomos dormir brigadas. Ou melhor, ela foi dormir e eu vim remoer a situação.
São muitos detalhes para processar e meus 21 anos não me permitem repassar cada um deles.
Felizmente eu guardo rancor e não desgosto, então neste caso há tanto amor que não consigo pesar os lados. Um dia eu terei que fazer, caso eu ainda queira seguir com a vida. Mas por enquanto eu varro a sujeirinha pra d'baixo do tapete.
Mas eu sinto, e eu sinto muito por tudo que eu sou… Deus sabe o quanto me desagrada cada partícula minha - Talvez por causa dela? - Cada voz reprimida, cada traço espontâneo contido para que não haja transtornos a ela… Eu me calo por ela! Eu me afasto, me isolo, me coloco no casulo por ela. Deixo de ver a luz da manhã e as luzes da noite por ela. E sendo assim, as poucas palavras que me restam são encerradas por descaso. Ela não sabe que eu somente a tenho?

A vida a calejou bastante e disso eu entendo, afinal fiz parte de um dos maiores calos que ela já teve. E por conta dos graves ocorridos eu aceito e cerro minha boca, meus olhos e ouvidos. Meus gestos. Minhas faces. - Até eu não saber como agir do lado de fora, afinal na casa dela eu sou zero
Eu lhe trago paz ou tormento, no fim das contas?
O maior de todos seus desconfortos sou eu, mãe