Em determinado momento eu parei de acreditar que algo bom aconteceria comigo. Sei la, eu estava preparada para o pior o tempo inteiro. Sabia que minha mente estava destruida, cada parte dela estava tomada, e eu nao teria muito tempo por aqui. Eu pensava sobre meu suicidio o tempo inteiro, e ele ja havia virado desculpa para nao investir em mim mesma.
"Vou estar morta daqui ha dois anos mesmo"
Em partes, eu tinha ciencia que era uma falta de tato com a situaçao, eu simplesmente nao sabia como proceder. Havia passado por inumeras provaçoes, que por sinal acabaram me provando um gosto amargo de rejeiçao e desafeto, as quais desmoronaram minha recem descoberta carga emocional. Me recordo de poucas coisas boas no meu passado, e as ruins deixaram feridas extensas, expondo uma carne fresca pronta para apodrecer.
Eu sei que minha consciencia foi manipulada para que eu pensasse em tudo como algo muito maior e pior. Manipulada por mim mesma, eu sei. Acho que se chama nostalgia, ou seja la o que for. Mas ja me distanciei demais da realidade para saber discernir meu chao do meu abismo.
Nao sei ao certo o que me levou a nao me levar. Nao sei qual esperança eu mantinha, pois como eu disse, de nada me recordo com clareza. Tinha vezes em que eu me atirava no chao e socava com nos latentes meu peito, mas nada acontecia. Eu sentia raiva dessa existencia e por algum motivo eu precisava alimentar essa raiva por mim mesma e provar para tudo e todos e minha funçao nesse mundo seria apenas a de estraga-lo, de acinzenta-lo.
Eu sentia o veneno sair pelos meus poros, apodrecendo meu andar. Incendiando o solo. Matando as abelhas. Murchando as flores. Eu era o escarnio, eu o abraçava com um sorriso. Eu era a pior pessoa que eu conhecia, e o jeito de viver era permitir a sujeira, e deixa-la correr em minhas veias.
Frequentemente eu sentia o cheiro pungente arder meu nariz. Eu fedia o tempo inteiro, nao importa a quantidade de perfumes e desodorantes e cremes que eu passasse. Eu simplesmente fedia azedo e contaminava as roupas que me vestiam. Aparentemente as pessoas nao sentiam o cheiro, apesar de questiona-los o tempo inteiro sobre o incomodo que deviam estar sentindo com o azedume. Com certeza mentiam, eu pensava. Mas eu sentia, e me lavava o tempo inteiro com agua fria e agua quente, sabonete neutro e sabonete com fragrancia. A agua quente me deixava pegajosa pois a pele oleosa nao resistia ao ressecamento do vapor. Me sentia ainda pior e passei a me comparar com o lixo que encontrava nas esquinas pelas manhas. A agua gelada funcionou. Era incrivel sentir a pele gelida, dura, esterilizada. Eu era uma estatua de marmore exposta em um museu de horrores. Queria ser fria assim o tempo inteiro, aquilo era o inicio da beleza pra mim: A tortura impiedosa que ardia minha pele e me fundia em obra de arte. Ao amanhecer eu estava limpa.
As pessoas... Elas mentiam muito. Eu passei a observa-las mais depois de tomar consciencia dos meus pensamentos. O tempo inteiro eu as comparava e notava suas farsas no olhar, na fala, nos gestos. Eu era assim?