Em primeiro lugar, eu passei por alguns problemas.
Quando eu era pequena eu não entendia muito bem o mundo adulto e o porquê do meu pai não aparecer nas tardes de domingo. Depois de um tempo eu passei a conviver com instabilidade pseudo-familiar e não entendia o porquê do meu silêncio ser tão crucial para a harmonia de todos. Eu cresci e não entendi o porquê de me desfazer de tantas coisas que me faziam bem e de apodrecer tudo que eu fiz florescer.
Meus dias se tornaram cinza, minha visão passou a ser turva, e a respiração falha. Eu acordo procurando a luz do dia ensolarado, mas não vejo o astro-rei brilhar e quando tento puxar o ar gelado da manhã o não consigo segurar a inspiração o suficiente para sentir meus pulmões revitalizados.
E se a respiração me é falha, e se minha visão me engana e se os meus poros hibernam afim de neutralizar meu mais precioso contato com o exterior não me resta mais nada se não me afogar no limbo de vazio em que me atirei.
E hoje eu nem reconheço outra realidade.
E eu nem tento, nem desfaço, nem persisto, nem atraio.
Eu flutuo e deixo as ondulações dessa lagoa abissal me enroscarem e me abraçarem.
E hoje eu nem sei onde estou.
E a gente só pára de viver quando percebe o que não se vive.